Em tempos de inflação, aluguel caro e boletos em alta definição, um artista italiano decidiu simplificar a vida: vendeu uma escultura invisível por R$ 87 mil. Nada de frete, nada de instalação, nada de “cuidado, é frágil”. A obra se chama “Eu Sou” e, segundo o criador Salvatore Garau, é feita de “ar e espírito” — dois materiais que, até onde a humanidade sabia, eram gratuitos.
A obra não é uma pegadinha e nem um teste coletivo de paciência: ela foi “exibida” em um espaço vazio de 1,5 m por 1,5 m, e o comprador recebeu o item mais importante do mundo da arte contemporânea: um certificado dizendo que aquilo ali, no nada, é alguma coisa.
O texto do certificado descreve a peça como uma “escultura imaterial”, feita para ficar em um espaço sem obstáculos, com dimensões variáveis (aproximadamente 200 x 200 cm) e registro. Ou seja: não basta não existir — o “não existir” precisa existir com documentação.
Garau defende que o “nada também é arte” e que a obra provoca percepção, reflexão e incômodo. O que faz sentido, porque depois de pagar R$ 87 mil por uma escultura que não está lá, o mínimo esperado é incômodo — de preferência com duração de umas 48 parcelas.
E essa não foi a primeira vez: o artista já tinha lançado outras obras invisíveis, com nomes que soam como meditação guiada de luxo, tipo “Buda In Contemplation” e “Afrodite Piange”. Aparentemente, o catálogo dele é a prova de que o silêncio tem preço.
O colecionador não comprou uma obra. Comprou o direito vitalício de apontar para o nada e dizer: “aqui tem arte — e você não entenderia”.
No fim, a escultura invisível é o produto perfeito do nosso tempo: minimalista, sustentável, não ocupa espaço e custa como se viesse com um apartamento de brinde. Se isso é genialidade ou golpe educado, a resposta depende do seu saldo bancário e do quanto você respeita um papel timbrado.
