Tem livro que você abre e entende na hora. E tem o Manuscrito Voynich, um volume ilustrado datado entre os séculos 15 e 16, encontrado em 1912, que parece escrito por alguém que misturou latim, rabiscos de laboratório e a interface de um videogame antigo. O pacote inclui: plantas estranhas, símbolos do zodíaco, criaturas bizarras e mulheres nuas em banheiras com líquido verde.
Por décadas, já chamaram o Voynich de mensagem cifrada, obra extraterrestre e até farsa. Só que um historiador britânico, Nicholas Gibbs, afirmou ter decifrado o mistério — e a solução é bem menos “ET” e bem mais “spa medieval”.
Segundo Gibbs (em artigo publicado na The Times Literary Supplement), o Voynich seria, basicamente, um manual de referência de remédios e bem-estar, com foco especial na saúde das mulheres. Nada de conspiração cósmica: seria um compilado de práticas e receitas de medicina medieval, possivelmente feito até para uma pessoa específica.
O pulo do gato (ou do escriba) estaria na escrita: em vez de um código indecifrável, o texto seria uma avalanche de abreviações em latim, usando ligaduras — símbolos que unem letras e economizam trabalho, muito comuns na Idade Média. Gibbs diz ter identificado ligaduras e abreviações com base em um léxico de latim medieval, e interpretou partes como instruções e ingredientes de herbário: coisas do tipo “água”, “mistura”, “raiz” etc.
E as ilustrações que parecem delírio?
- Plantas: ingredientes para infusões e preparos.
- Zodíaco e diagramas: recursos comuns em obras médicas do período.
- Banhos: tradição terapêutica antiga, herdada de gregos e romanos e reciclada pela Idade Média.
- Mulheres em líquido verde: para Gibbs, isso conversa com tratados e guias de saúde feminina (ginecologia medieval e práticas de banho medicinal).
Só que o “fim do mistério” não agradou todo mundo. Outros especialistas apontaram que a explicação seria pouco demonstrada e criticaram o fato de o argumento vir acompanhado de pouca “decodificação” concreta.
Imagina dedicar a vida a quebrar o “código mais impossível do planeta” e, no final, descobrir que ele pode ser o equivalente medieval de: “chá, banho e repouso”.
O Manuscrito Voynich continua sendo o tipo de enigma que não morre: mesmo quando alguém apresenta uma resposta “simples”, o mundo responde com a frase mais humana possível: “tá, mas prova melhor”. E assim o livro segue seu destino: um objeto que parece sempre estar a um passo de ser compreendido — e a dois passos de voltar a ser bruxaria.
