Ao longo da história da Copa do Mundo, seis seleções disputaram o torneio representando países que hoje não existem mais. Foram dissolvidos, renomeados, fragmentados em guerras ou simplesmente varridos pelo vento da história.
Bora conhecer cada um deles?
Índias Orientais Holandesas: a estreia asiática que virou Indonésia
Copa: 1938 (França)
Antes de a Indonésia existir como nação independente, seu território era uma colônia holandesa com um nome comprido e curioso: Índias Orientais Holandesas. E foi com esse nome que a seleção entrou para a história como a primeira asiática a disputar uma Copa do Mundo.
A participação foi curta (uma derrota por 6 a 0 para a Hungria e tchau), mas o feito histórico ficou. Em 1945, dois dias após a rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial, o líder Sukarno declarou a independência do país que o mundo passou a conhecer como Indonésia.
Detalhe poético: aquela seleção de 1938 ainda aparece nos registros históricos como “Indonésia” em muitos sites. A identidade sobreviveu, mas o nome colonial, não.
Tchecoslováquia: vice-campeã duas vezes e depois… dividida ao meio
Copas: 8 participações (1934 a 1990)
Poucos sabem, mas a Tchecoslováquia foi uma das seleções mais respeitáveis do século XX. Disputou duas finais de Copa do Mundo em 1938 (perdeu para a Itália por 2 a 1) e em 1962 (perdeu para o Brasil por 3 a 1). Vice-campeã duas vezes. E ainda ganhou a Eurocopa de 1976.
Em 1993, tcheco e eslovaco resolveram se separar sem guerra, sem drama, num processo tão civilizado que ficou conhecido como o “Divórcio de Veludo”. O país se dividiu em República Tcheca (hoje chamada Tchéquia) e Eslováquia.
O resultado futebolístico? As duas seleções ficaram bem menores do que a soma das partes. Nenhuma das duas chegou perto do desempenho da antiga Tchecoslováquia. Às vezes, dois não é melhor que umAlemanha Oriental — ganhou da Alemanha Ocidental e depois desapareceu
Copa: 1974 (Alemanha Ocidental)
Aqui mora um dos momentos mais absurdos da história das Copas. A Alemanha estava dividida em dois países durante a Guerra Fria, e em 1974 o Mundial foi realizado justamente na Alemanha Ocidental. As duas Alemanhas caíram no mesmo grupo — e a Oriental venceu a Ocidental por 1 a 0.
Foi o único encontro entre as duas no futebol. E foi também a única Copa que a Alemanha Oriental disputou. Eliminada na fase seguinte, a equipe foi para casa. Em 1989, caiu o Muro de Berlim. Em 1990, acabou a Alemanha Oriental e seus jogadores passaram a integrar a seleção unificada que, naquele mesmo ano, foi campeã do mundo na Itália.
Ironia máxima: o país que perdeu para o lado “menor” em campo foi o mesmo que ganhou o campeonato depois de reunificado.
União Soviética: 7 Copas, um goleiro lendário e uma nação que implodiu
Copas: 7 participações (1958 a 1990)
Durante quase quatro décadas, a URSS mandou uma das seleções mais temidas da Europa para as Copas. O melhor resultado foi o 4º lugar em 1966, na Inglaterra, com o lendário goleiro Lev Yashin, considerado por muitos o melhor da história nessa posição.
Em 1991, o gigante socialista entrou em colapso e se fragmentou em 15 países. A Rússia herdou oficialmente o legado histórico da seleção soviética nos registros da FIFA, mas os resultados dificilmente se repetiram. Nenhuma das ex-repúblicas chegou perto do que a União Soviética já fez.
A Copa de 1990, na Itália, foi a última. No ano seguinte, o país simplesmente deixou de existir.
Iugoslávia: do berço da Copa até a guerra que destruiu tudo
Copas: 9 participações (1930 a 1998)
A Iugoslávia estava lá desde o começo: foi uma das 13 seleções que disputaram a primeira Copa do Mundo da história, em 1930, no Uruguai e chegou às semifinais. Uma das mais antigas e tradicionais do torneio.
Ao longo de décadas, o país reunia talentos de croatas, sérvios, eslovenos, bósnios e outros povos numa seleção genuinamente plural. Em 1998, disputou sua última Copa, na França.
A dissolução foi um dos processos mais violentos do pós-Guerra Fria. Guerras étnicas entre 1991 e 2001 rasgaram o país em sete nações: Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia do Norte, Montenegro, Sérvia e Kosovo. A Croácia, curiosamente, apareceu nas ruínas desse trauma e se tornou uma das grandes histórias do futebol moderno, chegando ao 3º lugar em 1998, vice em 2018 e 3º lugar novamente em 2022.
Zaire: o pioneiro africano que hoje se chama Congo
Copa: 1974 (Alemanha Ocidental)
O Zaire tecnicamente não deixou de existir, só trocou de nome. Mas merece estar nessa lista pelo contexto absurdo da história.
Depois de um golpe militar, o ditador Mobutu Sese Seko rebatizou o país (antes chamado Congo Belga) como Zaire em 1971. Três anos depois, a seleção foi à Copa da Alemanha e entrou para a história como a primeira da África Subsaariana a disputar um Mundial.
A campanha, no entanto, foi sofrida: três derrotas, nenhum gol marcado, incluindo uma goleada por 9 a 0 da Iugoslávia. Com o fim do regime de Mobutu em 1997, o país voltou ao nome República Democrática do Congo, que usa até hoje.
O mapa muda; o futebol, não.
A Copa do Mundo existe desde 1930 — e o mundo de 1930 é completamente diferente do de hoje.
Esses seis casos mostram que, por trás de cada seleção, existe uma nação inteira com sua política, sua história e seus conflitos. E que nem sempre o país que entra em campo hoje vai existir da mesma forma amanhã.
Absurdo? Sim. Mas é a história.
